O que os guarani nos ensinam sobre gestão de pessoas e sustentabilidade

O que os guarani nos ensinam sobre gestão de pessoas e sustentabilidade

Inspiração na sabedoria ancestral para construir equipes mais colaborativas, criativas e inclusivas.

Este artigo nasce da inspiração do texto Misturado Igual a Gente (Revista Piseagrama) que apresenta as vozes da aldeia Kalipety, na Terra Indígena Tenondé Porã. Ali, o modo de vida guarani nos revela algo profundo: convivência, diversidade e equilíbrio não são conceitos de cartilha ou slogans corporativos, mas práticas diárias que sustentam a vida em comum.

E se trouxéssemos esses aprendizados para dentro das organizações?

Diversidade: a mistura que fortalece

Na Kalipety, a diversidade é celebrada como princípio vital. Como diz Jera Guarani: “A Kalipety […] é a única aldeia que tem famílias diferentes pelos quatro cantos da aldeia. De alguma forma, conseguimos compreensão e harmonia com essa diversidade de famílias, como a diversidade do milho guarani.”

Essa metáfora do milho é poderosa. Ao plantar variedades diferentes lado a lado, nasce algo novo, surpreendente e mais forte. No mundo do trabalho, funciona do mesmo jeito: quando juntamos pessoas com experiências, identidades e perspectivas diversas, ampliamos a capacidade de inovar e enfrentar desafios. Diversidade não é um problema a ser gerenciado, mas um recurso a ser cultivado.

Equidade: diminuir o peso do patriarcado e compartilhar força

Outro ensinamento Guarani está na diferença entre poder e força. Como registram no texto: “…na qual se troca a palavra poder – que não tem tradução em Guarani – pela palavra força. A força você pode diluir, você pode dividir, mas o poder, não.”

Essa visão abre espaço para pensar a liderança de maneira menos hierárquica e mais colaborativa. Nas empresas, o poder centralizado muitas vezes gera disputa e rigidez; já a força, quando compartilhada, cria pertencimento e engajamento.

“Nesse território, trabalhamos a longo prazo para que não exista mais nenhuma palavra que se refira ao modelo de liderar entendido como padronizar, concentrar o poder, deixar que uma pessoa determine tudo, saiba de tudo e decida por todos.” ( Jera Guarani, agricultora e liderança na Terra Indígena Tenondé Porã)

Essa lógica também se aplica ao equilíbrio de gênero. Entre os Guarani, a vida comunitária desafia a necessidade de uma estrutura patriarcal baseada no cacique como figura única de autoridade. As mulheres têm papel fundamental na vida política, espiritual e cotidiana da aldeia, e esse equilíbrio diminui a dependência de lideranças autoritárias masculinas.

Para nós, isso é um lembrete claro: equidade de gênero não é apenas uma meta de representatividade, mas uma forma de fortalecer coletivos e reduzir a reprodução de estruturas opressivas. Em ambientes profissionais, quanto mais equilibramos as vozes e os lugares de decisão entre homens e mulheres, mais justo e sustentável se torna o processo de gestão.

Mborayvu: o desafio do afeto até com quem não gostamos

Talvez o ensinamento mais desafiante e inspirador seja o de mborayvu, traduzido como amor ou afeto. Mas aqui não se trata apenas do carinho entre pessoas próximas. Mborayvu é também sobre como nos relacionamos com quem não gostamos ou não escolheríamos. Como lembram no texto, viver em comunidade exige lidar até com quem nos desagrada — porque o coletivo é maior que as preferências individuais.

Essa lição é profundamente atual para a vida profissional. Quantas vezes não precisamos trabalhar lado a lado com colegas com quem temos atritos ou pouca afinidade? O mborayvu nos propõe um exercício de maturidade: cultivar respeito, empatia e disposição de conviver, mesmo quando não há afinidade pessoal.

Não se trata de apagar conflitos, mas de criar condições de respeito mútuo para que o coletivo continue funcionando. No fundo, é essa escolha consciente de praticar o afeto — mesmo na diferença — que sustenta equipes diversas e criativas.

Sustentabilidade: cuidar para além de si

O modo de vida Guarani também nos mostra que não há convivência saudável sem compromisso com o cuidado — da terra, das sementes, das pessoas. Como lemos: “…trabalho de recuperação da terra, das sementes tradicionais e dos conhecimentos associados à biodiversidade…” e ainda: “…a preservação da natureza no nosso território é importante não só para nós, […] mas também para o planeta como um todo.”

Esse olhar de longo prazo é essencial para empresas que buscam prosperidade sustentável. Não basta pensar em resultados imediatos: é preciso cultivar ambientes que regenerem, em vez de esgotar. Isso vale tanto para a natureza quanto para as relações humanas.

O convite de “misturar igual a gente”

O texto que inspira este artigo tem um título que é, por si só, um convite: Misturado Igual a Gente. Misturar é conviver, aceitar a diferença, encontrar força no coletivo, praticar equidade e afeto.

Nas empresas, isso pode significar criar espaços onde:

  • a diversidade é vista como riqueza,
  • a equidade de gênero e a partilha de força substituem hierarquias rígidas,
  • o afeto e a empatia devem guiar as relações mesmo nos conflitos,
  • e a sustentabilidade é o horizonte comum.

Os Guarani nos lembram que a convivência não é um detalhe da vida, mas sua própria base. E que, para florescer, precisamos aprender a misturar, compartilhar e cuidar — dentro e fora das organizações.

A eqipe causadora recomenda fortemente a leitura do texto que inspirou esse artigo disponível em: MISTURADO IGUAL A GENTE – Piseagrama

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