Não existe sotaque neutro

Não existe sotaque neutro

Como a ideia de neutralidade linguística está ligada a relações de poder, território e exclusão.

Recentemente, ao recebermos um documento de orientação para a produção de conteúdos acessíveis, incluindo vídeos com audiodescrição e audioguias, nos deparamos com um critério aparentemente técnico, mas profundamente revelador.

Entre as diretrizes para locução, havia a recomendação de priorizar vozes com uma fala considerada “neutra”, sem sotaques evidentes.

À primeira vista, pode parecer apenas uma busca por padronização. Mas, na prática, essa orientação levanta uma questão importante: existe mesmo uma voz “sem sotaque”?

Ou melhor, quem decide qual sotaque é considerado neutro e quais são descartados?

O mito da neutralidade

A ideia de uma fala “neutra” não é linguística é social.

Como explica Marcos Bagno, referência no debate sobre preconceito linguístico no Brasil, não existe forma de falar superior ou inferior. O que existe é uma hierarquização social das variantes da língua.

“Não existe uma única forma ‘certa’ de falar português”. Em sua crítica ao preconceito linguístico, ele mostra que o que chamamos de “erro” muitas vezes é apenas uma variação legítima da língua. 

“O preconceito linguístico é, na verdade, um preconceito social disfarçado” (Marcos Bagno, no livro Preconceito Linguístico: o que é, como se faz”)

Bagno mostra como determinadas formas de falar são valorizadas porque estão associadas a grupos com mais poder enquanto outras são deslegitimadas. Ou seja, chamar um sotaque de “neutro” é, na prática, chamar os outros de “desviantes”.

A Língua Brasileira de Sinais também apresenta variações regionais. Sinais podem variar de uma região para outra, refletindo culturas locais, histórias e comunidades surdas específicas.

Ou seja: mesmo em uma língua visual-gestual, a diversidade é regra, não exceção.

Quando a língua revela raça, território e poder

A discussão não é só sobre linguagem. É também sobre raça, território e história.

A intelectual Lélia Gonzalez propõe o conceito de pretuguês para mostrar como o português falado no Brasil é atravessado por influências africanas, especialmente na sua oralidade.

Ao valorizar uma fala padronizada e “sem marcas”, o que se faz, muitas vezes, é apagar essas heranças. E isso não acontece de forma inocente.

A forma como uma pessoa fala pode denunciar sua origem regional, sua classe social e, muitas vezes, sua racialização. Excluir sotaques é, também, excluir corpos e trajetórias.

O problema da acessibilidade que padroniza

Existe uma contradição importante aqui. Estamos falando de um projeto de acessibilidade, ou seja, de ampliar o acesso, incluir mais pessoas, considerar diferentes experiências.

Mas, ao exigir uma locução “sem sotaque definido”, o que se faz é o oposto: restringir.

A acessibilidade não pode ser pensada apenas como adaptação técnica. Ela também precisa ser cultural e simbólica.

Uma audiodescrição com diferentes vozes, sotaques e ritmos pode ser mais representativa e mais conectada com o público real.

O preconceito sutil (e por isso mesmo mais difícil de enfrentar)

Esse tipo de diretriz não costuma vir acompanhado de uma intenção explícita de discriminar. E é justamente aí que mora o problema. O preconceito contemporâneo raramente se apresenta de forma direta. Ele aparece em escolhas aparentemente técnicas:

  • “voz limpa”
  • “fala neutra”
  • “padrão de mercado”
  • “sem regionalismos”

Mas essas expressões carregam um histórico de exclusão. Como apontam diversos autores e autoras negras e nordestinas/os, a norma culta sempre esteve mais próxima dos centros de poder do Sudeste, especialmente do eixo Rio–São Paulo.

Outras vozes para ampliar o debate

Além de Marcos Bagno e Lélia Gonzalez, esse debate também é atravessado por reflexões de autoras e autores como:

  • Conceição Evaristo, que valoriza a oralidade e a experiência vivida como forma legítima de produção de conhecimento;
  • Djamila Ribeiro, ao discutir lugar de fala e quem tem legitimidade para ocupar espaços de produção de discurso;
  • Sueli Carneiro, ao evidenciar como as estruturas sociais produzem apagamentos sistemáticos.

Todos apontam, de formas diferentes, para a mesma direção: não existe neutralidade quando falamos de linguagem no Brasil.

E se a gente invertesse a lógica?

Em vez de buscar uma voz “sem sotaque”, talvez a pergunta seja: como podemos garantir diversidade de vozes?

Isso inclui:

  • valorizar diferentes sotaques regionais;
  • reconhecer a pluralidade do português brasileiro;
  • entender que acessibilidade também passa por identificação;
  • evitar critérios que, mesmo sem intenção, reforcem exclusões.

Conclusão: acessibilidade não é só técnica, é posicionamento

A forma como escolhemos as vozes de um projeto diz muito sobre o mundo que queremos construir.

Se a acessibilidade pretende ampliar o acesso, ela precisa também ampliar as referências.

Porque, no fim das contas, não se trata apenas de quem pode ouvir mas de quem pode ser ouvido.

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