Inclusão na metalurgia avança, mas ainda precisamos falar sobre quem está ficando de fora

Inclusão na metalurgia avança, mas ainda precisamos falar sobre quem está ficando de fora

Pesquisa sobre inclusão de pessoas com deficiência no setor metalúrgico de Osasco e região traz uma boa notícia: o cumprimento da Lei de Cotas ultrapassou os 100%. 

Apresentada na última quarta-feira (18/03), a nova edição da pesquisa sobre inclusão de pessoas com deficiência no setor metalúrgico de Osasco e região traz uma boa notícia: o cumprimento da Lei de Cotas ultrapassou os 100%. Sim, você leu certo. O setor atingiu 105,2% de ocupação das vagas, mostrando que muitas empresas não apenas cumprem a legislação, mas vão além dela.

Esta é a 20ª edição da pesquisa, realizada pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e região. O material é uma referência e serve como uma das medidas de acompanhamento das ações de inclusão realizadas no setor.

Mas, como quase sempre acontece quando falamos de inclusão, os números contam só parte da história…

O que os dados mostram (e por que eles importam)

Ao todo, foram identificadas 570 pessoas com deficiência empregadas, para um total de 542 vagas previstas em lei. Além disso:

  • 60% das empresas cumprem ou superam a cota
  • Apenas 5,7% não contratam nenhuma pessoa com deficiência
  • Mais de um quarto das empresas contrata acima do exigido

Esses dados mostram uma mudança importante: a inclusão, ao menos no setor metalúrgico da região, deixou de ser exceção e passou a fazer parte da realidade de muitas empresas.

E isso não acontece por acaso

Um dos pontos mais importantes da pesquisa é algo que, na prática, quem atua na área já sabe: a inclusão no mercado de trabalho depende de ação intencional.

Nesse avanço, dois fatores foram decisivos: a atuação do Ministério do Trabalho, especialmente por meio da fiscalização e o trabalho contínuo de organizações, sindicatos e iniciativas que pautam o tema.

Entre essas iniciativas, o Espaço da Cidadania se destaca como um dos grandes influenciadores históricos na defesa da inclusão profissional de pessoas com deficiência. Sua atuação ao longo dos anos ajudou a consolidar não só o debate, mas também práticas concretas, incluindo o apoio direto às ações de fiscalização da Lei de Cotas.

A própria pesquisa mostra que, quando a fiscalização se intensifica, os resultados aparecem. Empresas que antes resistiam passam a contratar. O mercado se ajusta. E a inclusão avança.

Mas inclusão para quem?

Aqui entra o ponto mais sensível e, talvez, o mais importante deste debate. Apesar do avanço no número total de contratações, a distribuição dessas oportunidades ainda é bastante desigual:

  • 71,6% das vagas são ocupadas por pessoas com deficiência física e auditiva
  • Apenas 6,3% contemplam pessoas com deficiência intelectual, psicossocial, TEA ou múltipla

Ou seja, estamos incluindo sim, mas de forma seletiva. Na prática, isso revela que muitas empresas ainda priorizam perfis considerados “mais leves” ou “menos aparentes”, deixando de lado justamente aqueles que enfrentam maiores barreiras para entrada e manutenção no trabalho. E isso nos leva a uma pergunta incômoda, mas necessária: estamos promovendo inclusão ou apenas cumprindo uma meta?

O impacto do contexto (e por que precisamos ficar atentos)

Outro ponto importante trazido pela pesquisa é o comportamento do mercado ao longo do tempo. A inclusão de pessoas com deficiência ainda está muito ligada a três fatores: crescimento econômico, fiscalização e compromisso social das empresas.

Quando a economia cresce, contrata-se mais, mas nem sempre de forma espontânea. Quando há fiscalização, a inclusão avança. Quando há crise, infelizmente, as pessoas com deficiência ainda estão entre as primeiras a serem impactadas.

Isso mostra que a inclusão ainda não está totalmente consolidada como valor, ela ainda depende de pressão externa.

E quando ampliamos o alcance?

Estudos do CESIT Unicamp mostram que, no cenário mais amplo do mercado de trabalho, o cumprimento da Lei de Cotas ainda está longe do ideal, ficando historicamente abaixo de 50% em muitos contextos.

Ou seja, enquanto o setor metalúrgico da região supera a meta legal, o mercado como um todo ainda enfrenta dificuldades para sequer alcançá-la.

E há um ponto importante de convergência entre os dois cenários. Assim como na pesquisa do setor, os dados mais amplos também revelam um padrão de inclusão desigual com maior concentração de contratações em pessoas com deficiência física, baixa presença de pessoas com deficiência intelectual, psicossocial e múltipla e ainda barreiras que persistem mesmo quando há aumento de escolaridade.

Na prática, isso mostra que o desafio não está apenas em abrir vagas, mas em transformar a forma como o mercado enxerga capacidade, adaptação e potencial.

Um avanço importante mostra um desafio ainda maior

Os resultados do setor metalúrgico são, sim, positivos. Eles mostram que é possível avançar quando há articulação entre empresas, poder público e sociedade civil. Mas também deixam claro que o próximo passo é mais complexo. 

Não basta cumprir a cota. Não basta contratar. É preciso garantir que todas as pessoas com deficiência tenham acesso real às oportunidades, independentemente do tipo de deficiência.

O que vem agora?

Se os últimos anos foram sobre ampliar o número de contratações, os próximos precisam ser sobre qualidade da inclusão. Isso significa:

  • Diversificar os perfis contratados
  • Rever critérios e barreiras internas
  • Investir em acessibilidade e desenvolvimento
  • E, principalmente, mudar a forma como enxergamos capacidade e potencial

O avanço é real. O desafio agora é torná-lo mais justo e abrangente. Para nós da equipe causadora cumprir a cota não é o fim da jornada, é só o começo. Quem vem conosco trilhar esse caminho?

Quer se aprofundar nos dados?

Veja a análise completa que traz recortes detalhados por região, setor, tipo de deficiência e evolução histórica. https://sindmetal.org.br/wp-content/uploads/2026/03/PesquisaParaDiagramacao.pdf?swcfpc=1

Pesquisa “Mapeamento e análise de dados estatísticos sobre o emprego de pessoas com deficiência no estado de São Paulo” https://pesquisa.ie.unicamp.br/centros-e-nucleos/cesit/pesquisa-concluidas/panorama-do-mercado-de-trabalho-para-pessoas-com-deficiencia-em-sao-paulo/#subpage-cesit

Sobre a Santa Causa

A Santa Causa é uma empresa de treinamento e consultoria que tem como missão promover a inclusão de grupos minorizados, melhorar a gestão inclusiva das empresas e tornar o ambiente de trabalho mais diverso, inovador e feliz.

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