Entenda por que pessoas negras, LGBTQIA+, com deficiência e outros grupos se sentem tão exaustas mesmo “ocupando espaços”.
Você já se sentiu exausto por ter que provar o tempo todo que merece estar onde está? Esse cansaço tem nome: fadiga de acesso.
O termo vem sendo usado para descrever o desgaste emocional e psicológico que pessoas de grupos minorizados, como negras, indígenas, pessoas com deficiência, LGBTQIA+, mulheres em espaços machistas, sentem ao ocupar lugares que, historicamente, não foram feitos para elas.
Estar nesses espaços não é sinônimo de inclusão. Muitas vezes, é o início de uma jornada cheia de obstáculos invisíveis: olhares de desconfiança, microagressões, solidão, necessidade constante de se justificar ou representar uma “causa”.
De onde vem o termo fadiga de acesso?
Fadiga de acesso ainda não é um conceito acadêmico formalizado, mas já aparece em artigos e debates sobre diversidade, especialmente no mundo do trabalho e da educação. Ele se relaciona com outras expressões como:
- Racial Battle Fatigue: criada pelo professor William A. Smith, fala do impacto do racismo constante na saúde mental de pessoas negras.
- Minority Tax: o “preço” extra pago por quem é de um grupo minorizado e precisa, além de tudo, educar os outros ou liderar ações de diversidade.
- Burnout racial: o esgotamento emocional de viver e resistir em ambientes racistas.
O que isso tem a ver com racismo?
Tudo. Frantz Fanon, psiquiatra e filósofo, já explicava nos anos 1950 que o racismo não fere só o corpo, ele fere a alma. Pessoas negras, por exemplo, muitas vezes precisam usar “máscaras” para se adaptar a espaços brancos, negando partes de si mesmas para serem aceitas. Esse desgaste constante provoca esgotamento e pode levar ao adoecimento das pessoas.
No Brasil, Lélia Gonzalez e Sueli Carneiro mostraram como o racismo opera de forma silenciosa, mas brutal, apagando saberes, negando pertencimento e exigindo que pessoas negras provem o tempo todo que são “boas o suficiente”.
Não é só com pessoas negras
A fadiga de acesso também atinge outros grupos. Pessoas trans que vivem sob constante desconfiança e risco de violência. Pessoas com deficiência que precisam lutar por acessibilidade básica. Mulheres que são interrompidas em reuniões ou não são levadas a sério. São muitas formas de exclusão que geram o mesmo cansaço.
O direito de existir sem se esgotar
Paulo Freire falava sobre a importância de tomar consciência da opressão. Mas como seguir resistindo todos os dias sem se machucar? Pensadoras como bell hooks e Audre Lorde lembram que descansar também é uma forma de resistência. Cuidar da saúde mental é fundamental para quem está na linha de frente.
Mas a sociedade, principalmente as empresas que contratam, precisam entender que incluir de verdade não é só abrir a porta. É garantir que as pessoas entrem, fiquem, se sintam seguras e possam ser quem são sem precisar usar máscaras, sem sofrer assédios constantes e, principalmente, receber apoio e acolhimento. Reconhecer a fadiga de acesso é um passo importante para transformar os espaços que ocupamos.
Algumas referências
Para estudar mais sobre o tema, algumas referências usadas nesse texto foram:
- Frantz Fanon – Pele Negra, Máscaras Brancas. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
(Obra seminal sobre os efeitos do racismo na subjetividade negra.) - Lélia Gonzalez – Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
(Organizado por Flávia Rios e Márcia Lima.) - Sueli Carneiro – Escritos de uma vida. São Paulo: Jandaíra, 2023. Carneiro, Sueli. “A construção do outro como não-ser como fundamento do ser”. Tese de doutorado. USP, 2005. (Importante para o conceito de epistemicídio.)
- Paulo Freire – Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
(Conceitos de conscientização, opressão e emancipação.) - W.E.B. Du Bois – As almas da gente negra. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.
(Discussão da “dupla consciência” na identidade negra.) - Smith, William A. – Smith, W. A., Allen, W. R., & Danley, L. L. (2007). “Assume the Position…You Fit the Description”: Psychosocial Experiences and Racial Battle Fatigue Among African American Male College Students. American Behavioral Scientist, 51(4), 551–578.
(Origem do conceito de Racial Battle Fatigue.) - Audre Lorde – Sister Outsider: Essays and Speeches. Crossing Press, 1984.
(Especialmente o ensaio “Cuidar de si não é se mimar, é um ato de sobrevivência.”) - bell hooks – O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras. São Paulo: Rosa dos Tempos, 2018. Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.
- Grada Kilomba – Memórias da Plantação: episódios de racismo cotidiano. São Paulo: Cobogó, 2019.
- Djamila Ribeiro – Lugar de fala. São Paulo: Jandaíra, 2017.
- Roberts, Laura Morgan; Mayo, Anthony J. “Toward a Racially Just Workplace”. Harvard Business Review, 2020.
- Williams, Joan C. “The Minority Tax: Why It’s Real and How to End It”. Harvard Business Review, 2021.
Sobre a Santa Causa
A Santa Causa é uma empresa de treinamento e consultoria que tem como missão promover a inclusão de grupos minorizados, melhorar a gestão inclusiva das empresas e tornar o ambiente de trabalho mais diverso, inovador e feliz.