Um relato sobre o estresse de minoria, seu impacto no dia a dia das pessoas com deficiência e caminhos para enfrentar e derrubar as barreiras diárias.
Por Marina Yonashiro
Foi por um acaso que minha estreia no blog da Santa Causa aconteceu no mês da luta da pessoa com deficiência. Um acaso mais que bem-vindo, já que tenho deficiência visual e grande parte dos temas que pretendo abordar aqui se relacionam a pessoas com deficiência – embora não queira me limitar a essa pauta, já que também sou mulher e aliada de outras lutas.
Eu gosto particularmente desta data de 21 de setembro, “Dia Nacional da Luta da Pessoa com Deficiência”, porque em muitos espaços, simplesmente estarmos lá já é um ato de resistência, o que torna nossa vida uma luta constante.
Podia ser romântico se não fosse trágico. Essa falta de pertencimento e busca por direitos básicos gera fadiga de acesso (explicado nesse texto publicado aqui no blog), além de preocupações e ansiedades para estar nesses espaços, gerando o que chamamos de estresse de minoria.
É sobre esse tema que quero iniciar minha conversa com vocês aqui no blog.
Mas o que é o estresse de minoria?
O conceito foi sistematizado pelo psicólogo social Ilan H. Meyer na década de 1990, em pesquisas sobre a saúde mental da população LGBTQIA+. Meyer demonstrou que, além das pressões comuns do cotidiano, pessoas pertencentes a grupos minorizados vivenciam um estresse crônico adicional decorrente de preconceito, discriminação e expectativas de rejeição. Posteriormente, essa abordagem foi ampliada para compreender a experiência de outros grupos historicamente marginalizados, incluindo pessoas com deficiência.
Esse tipo de estresse é denominado “de minoria”, porque apenas grupos minorizados o sentem. Ele é desencadeado por preocupações e medos com situações cotidianas que para as demais pessoas podem parecer banais. Algumas preocupações no dia a dia de pessoas com deficiência são:
- Será que o trajeto que preciso fazer hoje é acessível? Será que vou conseguir andar pela calçada, atravessar a rua e pegar o transporte? (Preocupações que abarcam deficiências no geral)
- Será que o restaurante que meus amigos marcaram de ir tem rampa? Será que vou conseguir acessar o banheiro? (Preocupação que pode ter uma pessoa com deficiência física ou mobilidade reduzida)
- Será que essa reunião remota que o time marcou vai ter intérprete de Libras? (Pessoa surda)
- Será que esse novo sistema que minha empresa está adotando é acessível para meu leitor de telas? (pessoa com deficiência visual)
- Será que no aeroporto vou ter algum lugar silencioso para esperar meu voo com tranquilidade? (Pessoa neurodivergente)
Essas são apenas algumas das inúmeras preocupações que servem de pano de fundo da rotina da pessoa com deficiência. Isso acontece porque a acessibilidade ainda é uma discussão muito incipiente em muitos lugares, quando ela existe.
É muito raro uma pessoa com deficiência passar um dia inteiro sem ter ao menos uma preocupação como estas. Caso queiramos evitar nos preocupar, a solução é ficar em casa. Porém, isso gera isolamento e alimenta o ciclo da invisibilidade. Então, acabamos entre a cruz e a espada: ou saímos e enfrentamos nossas preocupações, ou ficamos em casa e restringimos nossa rede de apoio e ciclo social.
O impacto no dia a dia
Você já imaginou viver em um estresse contínuo, sem descanso? Hoje em dia, a maioria das pessoas se estressa devido a uma questão ambiental ou circunstancial, como trabalho, encontros familiares ou sociais. Nesses casos, em algum momento a pessoa consegue uma válvula de escape, como férias, passeios, atividades culturais ou práticas esportivas. Já no estresse de minoria, nunca temos essa trégua. Até para nossa viagem de férias, precisamos pesquisar ou procurar indicações sobre a acessibilidade do local que planejamos visitar e, na falta dela, mudar os planos.
Atividades rotineiras podem gerar bastante ansiedade para pessoas com deficiência, como sair para trabalhar ou encontrar os amigos. No primeiro caso, isso pode afetar diretamente o desempenho e, no segundo, um isolamento dos amigos e um sentimento de solidão, que pode culminar em uma ansiedade ou depressão.
Preparando a empresa para talentos diversos
No ambiente de trabalho essa realidade, muitas vezes, não é diferente. A pessoa pode ser altamente competente, cheia de cursos, diplomas e experiência de mercado, mas se não se sente à vontade na empresa, no time ou se não tem acesso aos recursos de acessibilidade que precisa, muito provavelmente não conseguirá dar tudo de si. E nesses casos, a empresa e as lideranças podem desperdiçar um grande talento.
Garantir um ambiente inclusivo para uma pessoa com deficiência é muito mais simples do que pode parecer e vai minimizar o impacto do estresse de minoria. É simplesmente garantir um ambiente acessível e respeitoso. Cada deficiência tem pontos específicos, e vale muito bater um papo com a pessoa para entender como ela se sente com a acessibilidade da empresa e do time.
Vou citar alguns pontos relevantes por tipo de deficiência, mas tenha em mente que essa lista não é um checklist completo e fechado em si mesmo. Está mais para um pontapé inicial, um rascunho que você deve aprimorar.
- Pessoas com deficiência visual: piso tátil, elevadores com indicação sonora, computador com leitor de tela, sistemas acessíveis.
- Pessoas com deficiência física e mobilidade reduzida: rampas de acesso, mobiliário adequado (como mesas e bancadas para quem usa cadeira de rodas), mouses ou teclados adaptados para quem possuir deficiência nos membros superiores.
- Pessoas surdas ou com deficiência auditiva: garantir intérprete de Libras ou legendas e transcrição nas reuniões (depende se a pessoa é oralizada e sabe português), além de sinalizações visuais para indicações sonoras (como alarmes de incêndio).
- Pessoas com deficiência intelectual, cognitiva ou neurodivegentes: Locais silenciosos para trabalhar, salas de descompressão sensorial, materiais escritos seguindo boas práticas como fontes sem serifa e não justificados.
Um disclaimer importante! As deficiências, além dos diferentes tipos, apresentam uma ampla diversidade de características que variam de pessoa para pessoa. Por isso, é muito importante que a empresa, os recursos humanos e a liderança entendam caso a caso as adequações a serem feitas nos postos de trabalho.
A cada passo, uma conquista
Eu gosto de ter um dia para falar da nossa luta, porque nós lutamos o tempo todo. E esse dia não é só das pessoas com deficiência, mas também de todas as pessoas que lutam com a gente.
Esse dia nos lembra que podemos comemorar o que já conseguimos, sem tirar o foco do que ainda precisamos alcançar.
O que já alcançamos?
- Lei Brasileira de Inclusão, de 2015: coloca a pessoa com deficiência como sujeito de direitos e não mais um objeto de assistência. Garante acesso a ambientes digitais e serviços como saúde e educação.
- Lei de Cotas, de 1991: exige que empresas com 100 ou mais empregados tenham entre 2% a 5% de funcionários com deficiência, proporcional à quantidade de funcionários totais.
- Muito mais representatividade em séries, filmes e novelas, como “Coda: no ritmo do coração”, “Uma advogada extraordinária”, “Todas as flores”, “Intocáveis”, para ficar só em alguns exemplos.
Ainda há muito o que fazer. Nem todas as leis são amplamente cumpridas. Em algumas séries e filmes, existe um certo romantismo ao retratar pessoas com deficiência (como tendo super-poderes). Ainda precisamos enfrentar o capacitismo na rua, no mercado e em uma entrevista de emprego.
Às vezes, quando penso como eu gostaria que a inclusão estivesse, fico um pouco frustrada, até desanimada. Acho que sentir tudo isso faz parte, e o importante é respeitar o que sentimos para depois conseguir voltar à luta.
O importante é manter o foco e a força, ficar junto de quem te apoia e acredita em você. Dia 21 de setembro está aqui para nos lembrar de que a luta vale a pena.
Marina Yonashiro é jornalista de formação e analista de tecnologia de profissão. Perdeu a visão com 11 anos e, desde então, entende pela própria vivência o que é acessibilidade. A partir dos 21 anos, começou a trabalhar com o tema. Seu foco hoje é em acessibilidade digital, já tendo atuado nas áreas financeira, da educação e do varejo. Pós-graduada em liderança e inovação, busca despertar propósito nas pessoas falando de acessibilidade real e seus impactos na vida de pessoas reais.
Sobre a Santa Causa
A Santa Causa é uma empresa de treinamento e consultoria que tem como missão promover a inclusão de grupos minorizados, melhorar a gestão inclusiva das empresas e tornar o ambiente de trabalho mais diverso, inovador e feliz.