Ao celebrar uma década de atuação, a Santa Causa revisita as mudanças legais, conceituais e práticas que transformaram o debate sobre deficiência, diversidade e inclusão e os desafios que ainda permanecem.
A Santa Causa está celebrando 10 anos. E queremos contar o que aprendemos sobre inclusão nos últimos 10 anos. Contar essa história também nos fez olhar para o que mudou ao nosso redor nesse período.
De 2016 a 2026, nossa trajetória aconteceu ao mesmo tempo em que vimos o debate sobre deficiência, acessibilidade, diversidade e inclusão se transformarem e ganharem novas camadas, trazendo para o centro temas como pertencimento, empatia e respeito Acompanhamos muitas dessas mudanças de perto e, com projetos, formações, consultorias e produção de conhecimento, tivemos a oportunidade de contribuir com algumas delas.
Quando começamos, em 2016, a Lei Brasileira de Inclusão acabava de entrar em vigor. Mais do que reunir direitos, a LBI consolidava no ordenamento jurídico brasileiro uma mudança fundamental na compreensão da deficiência: o foco deixa de estar apenas nas características individuais e passa a considerar as barreiras que impedem a participação em igualdade de condições.
Essa perspectiva mudou muita coisa.
Ao longo da última década, conceitos como barreiras, acessibilidade, desenho universal, adaptação razoável, autonomia e participação ganharam espaço nas organizações e no debate público.
Também aprendemos a nomear melhor algumas formas de discriminação. O termo capacitismo, antes muito mais presente nos movimentos sociais e na produção acadêmica, passou a circular de maneira mais ampla e nos ajudou a discutir práticas e comportamentos que durante muito tempo foram naturalizados.
A própria compreensão de acessibilidade se ampliou. E é impossível falar dessa evolução sem lembrar, com carinho e saudade, de Romeu Kazumi Sassaki, figura importante em nossa trajetória e que há anos abordava o caráter multidimensional da acessibilidade.
Se durante muitos anos ela, a acessibilidade, foi associada principalmente às condições de acesso aos espaços físicos, hoje é mais comum falarmos também de acessibilidade digital, comunicacional, tecnológica, metodológica, programática e atitudinal.
A transformação também chegou à internet. A LBI estabeleceu a obrigatoriedade da acessibilidade em sites de empresas e órgãos públicos. Uma década depois, além da evolução das diretrizes internacionais, o Brasil conta com uma norma técnica específica para acessibilidade digital, a ABNT NBR 17225.
A comunicação, que é área de nossa formação e campo de atuação marcante em nossa trajetória, também passou a ser discutida como uma dimensão do direito de acesso à informação. Audiodescrição, Libras, legendas, documentos acessíveis e Linguagem Simples ganharam mais espaço. Parece que, finalmente, torna-se mais presente a compreensão de que disponibilizar uma informação não significa necessariamente torná-la acessível.
No mundo do trabalho, os números também mudaram e permitem olhar para esse período tanto pelo copo meio cheio quanto pelo meio vazio. Em 2016, a RAIS registrava cerca de 418 mil vínculos formais de pessoas com deficiência. Hoje esse contingente é significativamente maior, ainda que aquém de seu pleno potencial
Mas a discussão também se tornou mais complexa.
A Lei de Cotas continua sendo fundamental para ampliar a presença de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, mas uma compreensão que sempre defendemos tem ganhado cada vez mais espaço: inclusão profissional não termina na contratação.
Passamos a discutir com mais intensidade permanência, desenvolvimento profissional, acessibilidade, adaptações razoáveis, pertencimento, carreira e liderança.
A pergunta deixou de ser apenas “como contratar pessoas com deficiência?” e passou também a incluir outra: quais barreiras a própria organização cria para que essas pessoas trabalhem, se desenvolvam e participem em igualdade de condições?
Nosso olhar sobre diversidade também se ampliou
Falar de deficiência sem considerar gênero, raça, classe, geração, território e outros marcadores sociais pode esconder diferenças importantes nas experiências de exclusão e acesso a oportunidades.
O olhar interseccional trouxe mais complexidade para a discussão, e também para nossa própria atuação.
Pessoas com deficiência conquistaram maior presença na produção de conhecimento, na comunicação, na cultura, nas redes sociais e nos espaços de discussão sobre políticas e práticas de inclusão.
Com isso, uma ideia se tornou cada vez mais difícil de ignorar: não basta desenvolver soluções para pessoas com deficiência. É preciso construí-las com pessoas com deficiência.
Diversidade, equidade, inclusão e acessibilidade também entraram definitivamente no vocabulário das organizações. Surgiram áreas especializadas, censos, grupos de afinidade, políticas, compromissos públicos e programas corporativos.
Mas essa década também mostrou os limites do discurso.
É possível defender diversidade e manter processos inacessíveis. Contratar pessoas com deficiência sem oferecer condições para sua permanência. Produzir campanhas inclusivas que não são acessíveis. Cumprir uma obrigação legal e continuar reproduzindo o capacitismo.
Talvez uma das principais mudanças destes dez anos seja justamente esta: aumentou nossa exigência sobre o que pode, de fato, ser chamado de inclusão.
Hoje temos mais legislação, conhecimento, referências técnicas, tecnologia e participação social. Mas permanecem desigualdades no acesso ao trabalho, baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança, barreiras digitais e comunicacionais, ambientes inacessíveis e barreiras atitudinais que continuam limitando direitos e participação.
Celebrar nossos 10 anos também é reconhecer esse percurso
Nossa atuação mudou porque o campo mudou. Nossas perguntas se tornaram mais complexas porque aprendemos mais. E muitas das questões que ajudaram a criar a Santa Causa continuam presentes, ainda que hoje sejam discutidas de outras formas.
E, diante dos avanços conquistados e dos desafios que permanecem, uma coisa também ficou evidente para nós nesses dez anos: nosso trabalho continua sendo necessário.
Referências e fontes
BRASIL. Lei nº 13.146/2015. Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência.
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm
BRASIL. Lei nº 8.213/1991, art. 93. Lei de Cotas para pessoas com deficiência.
https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8213compilado.htm
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Relação Anual de Informações Sociais, RAIS 2016.
https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/estatisticas-trabalho/noticias2/1254-ministerio-do-trabalho-divulga-a-relacao-anual-de-informacoes-sociais-rais-de-2016
MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Relação Anual de Informações Sociais, RAIS 2024.
https://www.gov.br/trabalho-e-emprego/pt-br/assuntos/estatisticas-trabalho/rais/rais-2024/rais-2024-1
ABNT. NBR 17225:2025. Acessibilidade em conteúdo e aplicações web.
https://www2.camara.leg.br/a-camara/estruturaadm/gestao-na-camara-dos-deputados/responsabilidade-social-e-ambiental/acessibilidade/normas-da-abnt-1
MELLO, Anahi Guedes de. Deficiência, incapacidade e vulnerabilidade: do capacitismo ou a preeminência capacitista e biomédica do Comitê de Ética em Pesquisa da UFSC. Ciência & Saúde Coletiva, 2016.
https://www.scielo.br/j/csc/a/J959p5hgv5TYZgWbKvspRtF/
SANTA CAUSA. O que é capacitismo? E por que ele pode ser um entrave à inclusão no trabalho? Atitude Inclusiva, 2022.
https://atitudeinclusiva.com.br/o-que-e-capacitismo/
SANTA CAUSA. O mito de que tratar todas as pessoas de forma igual é justo. Atitude Inclusiva, 2026.
https://atitudeinclusiva.com.br/o-mito-de-que-tratar-todas-as-pessoas-de-forma-igual-e-justo/
SANTA CAUSA. Guia da OIT ganha versão em português e ajuda empresas a irem além da contratação. Atitude Inclusiva, 2025.
https://atitudeinclusiva.com.br/guia-da-oit-asg/
Sobre a Santa Causa
A Santa Causa é uma empresa de treinamento e consultoria que tem como missão promover a inclusão de grupos minorizados, melhorar a gestão inclusiva das empresas e tornar o ambiente de trabalho mais diverso, inovador e feliz.