Em meio à corrida pela inteligência artificial, não podemos tratar acessibilidade, limites humanos e igualdade de oportunidades como detalhes.
Por Marina Yonashiro
Não se chama uma mulher de louca, porque isso é misoginia. Foi isso que meu marido me ensinou. Mas e quando somos nós mesmas que nos sentimos loucas?
Esse é um questionamento que tenho feito com frequência, especialmente porque algumas áreas da minha vida galopam, enquanto outras engatinham ou até retrocedem.
A inteligência artificial já constrói páginas inteiras na web, analisa códigos e sugere arquiteturas de desenvolvimento. Mas os e-mails sem descrição de imagens, as apresentações sem acessibilidade e os problemas de compatibilidade com leitores de tela nos sistemas operacionais só aumentam.
Como viver nessa dualidade? De um lado, a revolução. Do outro, a involução.
Existe uma disparidade entre aqueles que usam as tecnologias mais recentes — ou, pelo menos, as palavras da moda relacionadas a elas — e aqueles que não têm acesso a essas ferramentas ou ao conhecimento necessário para utilizá-las.
É também a disparidade de uma sociedade em que as pessoas que já têm oportunidades passam a ter cada vez mais, enquanto aquelas que não as têm encontram uma escassez crescente.
Não queremos quebrar as máquinas
É claro que não odiamos a inteligência artificial, que até já ganhou o apelido carinhoso de “ia”. Sou muito grata por poder usufruir da revolução que ela provoca na acessibilidade.
Hoje, por exemplo, quando recebemos uma encomenda, posso tirar uma foto e descobrir se ela é para mim ou para meu marido, e evitar abrir as coisas dele. Posso usar roupas como forma de expressão, entender memes nas redes sociais e acessar descrições de fotografias para que eu também possa comentá-las.
Isso para citar apenas alguns dos benefícios que a inteligência artificial oferece às pessoas com deficiência visual.
Quantas análises de dados já foram processadas? Quantas pessoas conseguem estudar adaptando os conteúdos às suas próprias necessidades? Quantas barreiras já foram quebradas?
Porém, enquanto avançamos tão rapidamente em algumas áreas, algo está ficando para trás.
A corrida pelo ouro
Quanto mais rápido você entende o potencial da inteligência artificial, mais rápido larga nessa maratona. O medo de ficar por último é tão grande que tentamos correr cada vez mais depressa.
Todos querem alcançar a linha de chegada primeiro, mas, na verdade, ninguém conhece completamente o potencial da inteligência artificial. Isso é duplamente exaustivo porque, além de tentarmos correr mais rápido do que os outros, não temos a perspectiva de finalmente chegar a algum lugar.
Vivemos em um mundo no qual parece que quem descobrir primeiro todo esse potencial levará tudo, o famoso the winner takes all.
O problema não é exatamente estarmos em uma maratona. O próprio Drauzio Varella tem um documentário que compara sua vida a uma maratona.
A corrida exige que reconheçamos os nossos limites. Precisamos diferenciar a dor incapacitante da fadiga comum, saber quando é hora de beber água e entender quando podemos correr mais rápido ou quando precisamos diminuir o ritmo para chegar até o final.
Com a velocidade da inteligência artificial, porém, parece que não temos tempo de prestar atenção aos nossos próprios sinais.
Assim, justamente aquilo que nos diferencia das máquinas, a nossa humanidade, também vai ficando para trás.
Precisamos de mais do que posts no LinkedIn
Provavelmente você já se deparou com discursos sobre “mais amor, por favor” no LinkedIn ou no Instagram. Mas, no final do dia, quem entregou mais costuma ser recompensado, independentemente de ter feito isso com amor ou não.
Na correria para entregar, produzir e ser visto, algumas coisas ficam para trás. Entre elas, a acessibilidade.
São lançados sites muito elegantes sem descrições de imagens, vídeos sem legendas e banners com combinações de cores sem contraste suficiente.
As pessoas com deficiência, que já precisavam se dedicar mais para driblar as barreiras impostas pela inacessibilidade, agora precisam se dedicar ainda mais.
Essa é a corrida de quem corre com uma fratura exposta, como canta Emicida em “Ismália”.
Tentando viver no contraditório sem enlouquecer
O primeiro passo, para mim, foi o reconhecimento.
Eu andava irritada sem um motivo aparente. Precisei de alguns dias para entender que aquilo que eu percebia era muito diferente do discurso que ouvia na televisão, nas reuniões, nas conversas de bar e nas redes sociais.
E, também, estava correndo para tentar chegar primeiro, ou pelo menos não ficar por último, vivendo qwentre a utopia e a distopia, ignorando meus próprios sinais.
O que me irritava eram essas duas forças me puxando para lados completamente distintos, enquanto apenas tentava me manter no “caminho do meio”.
Depois, precisei me expressar.
Estou escrevendo neste artigo aquilo que percebo e sinto. Também converso com pessoas que compartilham percepções semelhantes.
Talvez você continue sentindo raiva, assim como eu ainda sinto de vez em quando. Segundo a comunicação não violenta, a raiva pode surgir quando alguma necessidade importante não é atendida.
Acredito que uma das nossas necessidades mais profundas não está sendo respeitada: a necessidade de compreensão.
A necessidade de sermos vistos como pessoas inteiras, e não apenas como profissionais que precisam produzir mais, acompanhar todas as novidades ou se transformar em “engenheiros de prompt”.
A raiva, nesse sentido, não surge apenas da existência da inteligência artificial. Ela surge do contraste entre tudo o que já é tecnicamente possível e aquilo que continua sendo negado na prática.
Surge ao percebermos que existem ferramentas capazes de ampliar a autonomia, enquanto barreiras básicas de acessibilidade continuam sendo reproduzidas diariamente.
Mas a raiva também pode revelar aquilo que valorizamos. Ela mostra que ainda esperamos mais da tecnologia, das organizações e da sociedade. Mostra que não aceitamos a exclusão como algo natural ou inevitável.
Como também cantou Emicida em “A Ordem Natural das Coisas”, a vida sempre vence. E, enquanto houver esperança, há luta.
As pessoas com deficiência representam cerca de 15% da população mundial, sem contar outros grupos que se beneficiam da acessibilidade, como pessoas idosas e pessoas com deficiências temporárias.
Também existem pessoas aliadas e pessoas realmente comprometidas, para além das publicações nas redes sociais, com a construção de um lugar para todas as pessoas.
Eu continuo estudando, trabalhando, me mantendo ativa e utilizando muito a inteligência artificial.
E, continuo reconhecendo os benefícios que ela proporciona, sem ignorar as desigualdades que também pode aprofundar.
Mais que isso, continuo sonhando e lutando e, às vezes, sangrando por um lugar para todas as pessoas.
Talvez transformar a raiva em força mobilizadora seja justamente isso: não permitir que a frustração nos paralise, mas usá-la para nomear as contradições, exigir acessibilidade e lembrar que nenhum avanço tecnológico pode ser considerado verdadeiramente revolucionário se continuar deixando pessoas para trás.
Ter atitude se torna cada vez mais importante.
Ninguém nunca disse que ser agente de mudança seria fácil.
Marina Yonashiro é jornalista de formação e analista de tecnologia de profissão. Perdeu a visão com 11 anos e, desde então, entende pela própria vivência o que é acessibilidade. A partir dos 21 anos, começou a trabalhar com o tema. Seu foco hoje é em acessibilidade digital, já tendo atuado nas áreas financeira, da educação e do varejo. Pós-graduada em liderança e inovação, busca despertar propósito nas pessoas falando de acessibilidade real e seus impactos na vida de pessoas reais.
Sobre a Santa Causa
A Santa Causa é uma empresa de treinamento e consultoria que tem como missão promover a inclusão de grupos minorizados, melhorar a gestão inclusiva das empresas e tornar o ambiente de trabalho mais diverso, inovador e feliz.